Mesa pra dois

Era pra ser só mais uma viagem astral.

Queria se apaixonar e pegou o trem em direção a Berlin, sem malas, sem mágoas e disse adeus ao bom senso.

Carregava no bolso um cantil cheio de bitucas de cigarros e além do fetiche com banheiros, escrevia na bituca o nome de todas as paixões já vividas à lá viúva negra.

Juventude transviada, sexo, drogas, traumas e rock n’ roll, e ela só com a passagem de ida. Atrevida, decidida, maluvida, apaixonada pela nostálgica teimosia da morfina.

Ali, sentada na minha frente num desses vagões de classe baixa conheci Júlia, eu fiquei horas só a observar aquela cena, Júlia parecia uma pintura de Milo Manara num cartaz de filme dos anos 50.

– Aceita alguma bebida senhor?

– Ah, é.. me dá um café mesmo.

– E a senhora?

– Vinho!

Meia hora depois minha gastrite se arrependeu.

Enquanto ela apreciava um vinho eu fiquei sentado tragando minha timidez, desfocando toda uma ilusão no vidro e desenhando com o dedo em letras garrafais: “Johnny Cash e June Carter”.

Com fome mas sem dinheiro pra comer nada, fumei um cigarro pra abaixar a adrenalina e acabei dormindo.

Sonhei que estava num nirvana, aquela garota martelava na minha cabeça como um corte na escadaria de Odessa, repetidamente, sem raccords, sem claquetes e continuidade.

CORTA PARA:

Sentado, preso na privada do banheiro, sem camisa e todo amordaçado, e ela estava em minha frente, sentada na pia do banheiro com as pernas abertas na minha direção segurando um machado de pedra, semi-nua, serena, tranquila, pura poesia escorpiana.

Ela me olhando de soslaio com o cabelo cobrindo parte do sorriso, levantou a cabeça e disse:

– Me diz, por quê que eles inventam descarga automática, torneira automática, secador automático, se a porra da porta a gente tem que meter a mão?!

Sem entender nada continuei imóvel com os dois olhos fixos à ela.

– Eu queria fazer design de interiores quando era mais nova mas acabei parando em publicidade e propaganda e depois disso nunca acho que tá tudo bem, fico reparando em tudo sabe? É Tipo quando a gente vai num restaurante e você fica julgando o cardápio, o atendimento, como eles servem o prato… Eu gosto de tratar banheiros como se fossem restaurantes, eu entro, escolho a melhor mesa, o incenso, o drink, a sobremesa…

Ela levantou e baixou a intensidade da luz deixando somente vazar uma fresta de luz do solstício de inverno pela claraboia do banheiro e caminhou em minha direção com o machado na mão mas de repente o vagão entrou num túnel e tudo ficou escuro, assustado sem enxergar um palmo na frente do nariz, senti a mão dela subir pelas minhas pernas agarrando minhas coxas e mordendo meu pescoço, sem conseguir mexer um músculo apenas senti o machado gelado percorrendo meu peito sem camisa, ela puxou meu pescoço com o machado, tirou o sutiã, abriu as pernas, sentou em cima de mim e de repente tudo ficou em silêncio quando ela mordeu meu beiço inferior fazendo nosso corpo embalar na música dos trilhos.

Lábios

Pescoço

Peitos

e descendo… Luz!

O trem saiu do túnel e eu demorei um tempo até minha visão se acostumar com a pouca luz, foi quando vi que ela estava perto demais colocando o machado afiado na minha boca escancarada, encaixou a parte cortante de baixo pra cima no meu canino, me beijou no pescoço e com os olhos arregalados senti o machado gelado alcançar minha gengiva, apertou com força segurando o machado com as duas mãos e girou.

Meu dente pulou pra fora da boca.

Levantou e rasgou minha coxa direita de fora a fora, ainda de pé com os seios lambuzados de sangue raspou o machado em meu pescoço como quem limpa um peixe, depois passeou cortes em meu peito como quem enfeita o prato com molho Puttanesca.

Lambeu todo o sangue que escorria meu corpo apreciando aquilo como um condenado que faz sua última refeição.

Agora não tinha mais aquela ansiedade juvenil, estava plena, confiante. Acendeu um cigarro e fumou calmamente como quem espera uma ceia de natal ficar pronta, enquanto eu delirava de dor.

– Qual seu nome meu amor?

– …

– Tudo bem, adoro dar nome pras pessoas que não conheço.

Depois de fumar, apagou o cigarro no meu olho e escreveu na bituca: “Vinícius”.

Guardou a bituca no cantil, se vestiu, me beijou e deixou no meu colo um papel higiênico com marcas de batom escrito: “_________________________”

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: